Um nível superior de Liderança pelos Portugueses e a Necessidade de Melhorarmos

Os portugueses apresentaram a sua voz, a sua indignação e a sua forma tranquila de demonstrar descontentamento. Foi um excelente exemplo de apresentar aos gestores da sua empresa "Governo", que o caminho apresentado não é do seu agrado. E o problema essencial foi de não verem resultados do seu contributo neste ano e meio de esforço continuado.
O Governo não conseguiu comunicar. Os resultados apresentados são de facto insuficientes perante o esforço dispendido. E é por isso que vários milhares de portugueses sairam à rua, demonstrando que estão unidos em busca de um país melhor, de um país positivo, pois é nisso que acreditam!

A maioria de quem se manifestou procura isso mesmo: um país melhor! Não estava em discussão qualquer dogma ou ideologia política. Estava apenas em causa: Portugal!

Os portugueses demonstraram a diferença com outros povos, como o da Grécia, Itália ou Espanha. A capacidade de fazer manifestações tranquilas, cheias de indignação e de revolta, mas em busca de um país mais positivo. Esta é de facto uma notável demonstração de um nível muito forte da sua cultura, isto é, não é preciso destruir, não é preciso incendiar ou apedrejar para mostrar a indignação. Só por isso Portugal e os portugueses mostraram um nível superior de liderança. Há que dar muito valor a isto!

Infelizmente, estou certo que nos próximos tempos veremos alguns aproveitamentos políticos desta manifestação, de organizadores e de opositores políticos do Governo em busca de protagonismo. Mas, os portugueses não se deixam enganar e perceberão certamente essa tentativa de aproveitamento. E, normalmente, os enganos são por pouco tempo. A manifestação foi em busca de um caminho melhor para Portugal. E é isso que não devem esquecer!

Este foi um sinal de que há a necessidade de parar para pensar! Parar para estudar mais e melhor, onde e como alcançar os objetivos de uma retoma da economia. Os caminhos não são fáceis, todos nós sabemos, mas uma coisa estou certo: é necessário fomentar a economia, não  a asfixiando, pois ela está muito próximo da "secura", do seu ponto mínimo de sustentabilidade.
O fomentar da economia deve estar assente na criação de mecanismos capazes de injeção de capital no mercado, de garantir rotatividade no dinheiro e não é com a "paragem completa" da máquina do Estado que se chega lá. Isto é como um comboio que precisa de chegar a um destino, que ia descontrolado e que foi preciso abrandar, onde os passageiros compreenderam, mas não entendem como se pode chegar ao destino se querem parar o comboio, justificando que é  para garantir que o mesmo não gasta mais combustível. É aí que os passageiros se indignam e se manifestam, pois podem ir devagar, mas querem continuar as suas vidas e chegarem ao destino.

Os portugueses não se esquecem das origens das loucuras feitas e por quem foi feita! Não vale a pena lamentar mais. E são inteligentes o suficiente para reconhecer isso, mas não podem continuar a assistir a uma travagem do seu comboio, quando há ainda muitos vagões que consomem mais do que é normal.

Assim, é necessário agir mais rápido e ter coragem para o fazer. Os resultados têm de aparecer ou ser demonstrado que os Institutos duplicados, as Empresas Municipais esotéricas, as Câmaras e Freguesias que devem ser fundidas, etc. E, é aqui que o Governo tem falhado. Era preferível, por exemplo, manifestações de populações de freguesias ou de autarquias contra as fusões, do que ter um país inteiro em manifestação, pois essas fusões são objetivamente compreendidas, dado que se compreende o princípio da racionalidade e do enfrentar dos poderes instalados. Este é um exemplo de racionalidade. Os cortes das Fundações anunciados são bem vindos e todos agradecem e compreendem, mas é mais um exemplo que podia ter sido certamente feito há 6 meses ou há 1 ano atrás. O fomentar de crédito às empresas, pela CGD e pela banca em geral é essencial, uma vez que a asfixia existente nas tesourarias das empresas tem levado à destruição de valor do país, ao fecho abrupto das empresas e consequente desemprego da população.

Em conclusão, o princípio da "bola de neve" de parar totalmente a máquina, leva à asfixia pura da economia, pelo que não é possível continuar. Há que apostar , há que desbloquear os programas de investimento QREN para as empresas. Neste momento, as empresas que "tinham de morrer" já morreram, mas está-se muito próximo de que as empresas saudáveis comecem também elas a ficar "moribundas". E esse é o problema. É importante mudar. Os portugueses sempre se dispuseram a mudar. Políticas de Austeridade em demasia não, Racionalidade e Rigor sim!

Comentários

Vanda Figueira disse…
Sim. Muito bem. Mas há uma coisa com a qual discordo do Rui, que é quando diz que os enganos nunca são por muito tempo. A realidade é que o engano dos portugueses já dura à 2 décadas. Sim, também tenho orgulho de ter um país onde se podem fazer manifestações de indignação de forma ordeira e pacífica. Mas daí a ser uns pais com um "nível superior de liderança" vai um grande passo. Para isso tinham que fazer mais e mais cedo e por nós e pelos outros (e não só apenas agora por nós... porque nos toca a nós também!). Liderança é saber fazer mais e melhor com justiça económica e social para todos e isso em Portugal ainda não sabe fazer. Por isso gostava de ter ainda mais orgulho deste país que mais do que deixar que o destruam autodestrói-se ele próprio! Mas isso sou só eu porque sou uma pessoa, por natureza, insatisfeita! Ou quem sabe será por outras razões...
Rui Ribeiro disse…
Compreendo a sua referência aos enganos dos portugueses há 2 décadas, mas o principio que procurei apresentar foi de que quem quiser enganar não o faz por muito tempo.
O principio de liderança que apresentei focou-se precisamente numa demonstração da capacidade de mostrar a indignação.
Infelizmente injustiças irão continuar a existir, pelo que nos cabe a nós melhorar no dia a dia. Pode parecer ingenuidade, mas é desta forma que atuo todos os dias.
A diversidade de opiniões é positiva, os jogos políticos nem sempre o são e o "puxar para objetivos de país e não só os individuais" é o mais difícil de alcançar.
Conclusão: cabe-nos a nós melhorar e lutar por aquilo em que acreditamos. Não devemos estar insatisfeitos, mas sim inconformados quendo não concordamos com o que não concordamos.
Vanda Figueira disse…
Rui, acredite que percebo o seu ponto de vista e até essa “ingenuidade” de que fala quando diz que “nos cabe a nós melhorar no dia-a-dia” (essa ingenuidade que eu já tive e da qual me orgulhava tanto, mas que infelizmente hoje já não consigo ter - e que até invejo quem a tem).
Sim, é certo que há uma linha que separa inconformismo de insatisfação (isto metaforizando o anúncio da ZON).
Mas a verdade é que eu e muitos outros portugueses já à muito ultrapassámos essa linha que separa inconformismo de insatisfação. Como tal mais do que inconformados estamos verdadeiramente insatisfeitos… Pior que isso – estamos descrentes e começamos a viver roboticamente, evitando demonstrar emoções ou sentimentos, como forma de evitar que nos afetem. Reprimimos ao máximo os nossos pensamentos porque à partida sabemos que somos recriminados por traduzi-los em palavras e pior que isso sabemos que não produzem efeitos.
Já Miguel torga dizia “É um fenómeno curioso: O país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados."
Julgo que enquanto não deixarmos de ser apenas uma coletividade de inconformados e revoltados não seremos um país com o tal nível superior de liderança. Mas desejo muito que isso aconteça rapidamente!
Podíamos debater este tema eternamente, mas não vale a pena…
Quis apenas deixar aqui um rasgo d’outro ponto de vista. Espero que não me leve a mal.